4 de dez de 2011

10 anos Centro de Convivência Providência

Nesta quarta feira o SAPOS deu um pulinho no Providência, matamos a saudade e comemoramos juntos o aniversário deste espaço que para nós foi muito importante!! Reencontrar pessoas lindas foi uma delícia de presente e a Zila ainda nos brindou com este depoimento tão emocionante!
Os Centros de Convivência são importante no tratamento do portador de sofrimento mental, possibilitando ao usuário dos serviços criarem e recriarem a arte, criarem e recriarem suas vidas. As pessoas que aqui se encontram estão em igual situação, mas cada um diferente, aprendendo a conviver com as diferenças. Sem reduzirem suas vidas ao Centro de Convivência, são mães, pais, tios, irmãos, avós, que continuam sua vida lá fora, convivendo com seus familiares e a sociedade.
No Centro de Convivência combatem a ociosidade, se encontram distantes das prisões dos manicômios, onde estariam perdendo parte importante de suas vidas.
Quando adoeci há 14 anos atrás, após minha segunda gravidez, comecei a olhar pra minha filha de 6 meses e sentir medo dela, seu sorriso me ameaçava. Ao sentir que estava com medo dela, senti medo de mim mesma e a deixava com a vizinha enquanto meu marido não chegava. Cuidava muito da casa, das roupas e não achava tempo de me alimentar e alimentar minhas filhas. Percebi que estava esquisita e pedi ajuda ao meu irmão que foi me buscar em casa , encontrando lá um tanto de comida estragada e minhas filhas morrendo de fome. Meu marido chegava em casa e ia pro bar e não percebia o que estava acontecendo comigo.]
Fui então levada pra casa da minha irmã, e quando ela viu as minhas meninas, sujas, descabeladas e com fome, percebeu que eu precisava de um psiquiatra. Iniciei o tratamento, minha irmã tomava conta de minhas meninas, via o meu marido nos finais de semana, e só recobrei a consciência de que tinha uns seis meses depois. Aí quis assumi minhas filhas e achei que minha irmã queria toma-las de mim, e voltei a morar com o meu marido e cuidar das minhas filhas, indo diariamente para casa da minha mãe.
Com a ajuda de min há família, de amigos e de meu marido, consegui criar minhas filhas que hoje se encontram com 15 e 17 anos, que ainda precisam muito de mim, mas estão bem encaminhadas na vida, independentes e sabem tomar decisões.
Me lembro de quando eu falava pelos cotovelos que eu disse a elas : “ analisem o que eu falo, e se eu mandar fazer coisa errada não façam. “ Assim por um lado eu perdi um pouco da autoridade, mas não corri o risco de elas me obedecerem quando eu dizia coisas absurdas, e elas aprenderam assim a lidar com minhas crises.
Quando minhas filhas eram pequenas eu as chamava de meu remedinho, porque diante das crises eu pensava na responsabilidade de criá-las e superava mais por elas do que por mim própria. Tenho muito a agradecer ao meu marido que me apóia nesta jornada , que é minha vida.
Depois de algum tempo fui encaminhada ao centro de Convivência onde me identifiquei com algumas pessoas, gostei das aulas de desenho, música e vi que o que eu fazia tinha valor. Antes ficava muito ociosa em casa, e pensei que nunca mais iria ser aceita pela sociedade, é como se sentisse culpa pelo que estava acontecendo comigo .
Na primeira vez fiz um desenho que foi colocado num quadro e foi vendido numa feira, me senti valorizada pelo que fiz e resolvi a freqüentar mais. Não podia acreditar que aquilo que fiz pudesse ser comprado por alguém. Passei a fazer mais obras e hoje tenho o sonho de fazer uma exposição só minha com meus trabalhos. Vou fazendo alguma arte e quando vendo ganho uns trocados.
As aulas me ajudaram a descobrir habilidades e desenvolver trabalhos artísticos, como também aprendi a tomar decisões, uma vez que os técnicos se tornaram bons conselheiros e amigos.Tenho muito respeito e apreço pelos funcionários do Centro de Convivência e funcionários que passaram por aqui.
Aqui a gente se reeduca para a vida e aprende a viver melhor na sociedade, surgem projetos de trabalho, de estudo, de vida. Ajuda também aos nossos familiares a conviverem conosco. È uma opção para não perder a vida no hospício
Possibilita nossa circulação em vários locais da cidade, e começamos a olhar esta cidade com outros olhos, olhos de admiração e respeito.
Espero que minhas filhas tenham muito sucesso na vida e consigam ir onde eu não pude ir. Mas, se for da vontade de cada uma. Espero também que outras pessoas encontram no Centro de Convivência o que eu encontrei aqui: um caminho a seguir.

Rosilene Aparecida Souza Oliveira


Lindo tudo! Estamos felizes e agradecidos!!

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