5 de out de 2010

Saúde Mental, direito e compromisso de todos

Ao falar sobre direitos humanos e cidadania dos portadores de sofrimento mental penso na inclusão destes no campo da cultura e na liberdade de viver em sociedade.
Lendo um texto do psiquiatra e psicanalista Jurandir Freire sobre a cultura narcísica, entendo que o movimento da luta antimanicomial não apenas busca a inserção social da loucura mas também reinventa outras modalidades de existência frente a esta cultura, que eu chamaria de, dominante.
Para falar um pouco sobre isto, tomo a liberdade para fazer uma livre interpretação do texto de Jurandir.
O que seria essa cultura narcísica?
Hoje, o sujeito é o ponto de partida e de chegada do cuidado de si, sendo indiferente ou pouco sensível a compromissos com os outros. O narcisista cuida apenas de si porque aprendeu a acreditar que a felicidade é sinônimo de obtenção de prazer: quanto maior, mais imediato, mais constante for o prazer, mais feliz é o sujeito.
Assim, sem delegar à religião, à história, à política ou à família o papel de dar sentido à vida, o sujeito narcisista substitui essas instâncias normativas por uma outra não menos tradicional, a ciência.
O sentido da existência, a origem das obrigações éticas, as escolhas dos estilos de viver, todos esses itens implicados na busca da felicidade foram agregados ao rol de perguntas que a ciência, cedo ou tarde, vai responder.
No lugar da “excelência virtuosa da vida” surge um novo padrão, a “qualidade de vida”. E a qualidade de vida tem como referentes privilegiados o corpo e a espécie. Ser jovem, saudável, longevo e atento à forma física começa a funcionar como a regra científica que legitima ou desqualifica outras preferências e aspirações à felicidade.
Disso decorre uma contradição importante: o sujeito vê-se, simultaneamente, como onipotente, ao acreditar que pode fabricar o eu moral e psicológico a partir da pura matéria corporal, e como impotente, ao ser forçado a crer que o sentido do sofrimento humano está inscrito nos genes ou nos circuitos neuro-hormonais.
Outra contradição, não menos importante, tem a ver com a relação com o outro. Dado que a identidade é exposta, de pronto, na aparência corporal, o outro se tornou um potencial inimigo e não um parceiro de ideais comuns.
A cultura do intimismo sentimental, em especial a do romantismo, concedeu ao indivíduo o direito quase sagrado de escolher a quem revelar sua intimidade, da maneira e nas ocasiões que julgar mais favoráveis.
A cultura narcísica da exibição publicitária da privacidade já havia desferido um duro golpe nessa moral, ao comercializar o hábito das confissões públicas de segredos sexuais e emocionais, com vistas à venda de bens e serviços.
E a cultura somática acabou de completar a tarefa, ao fazer do corpo espelho da alma. O corpo se tornou a vitrine compulsória, permanentemente devassada pelo olhar do outro anônimo, de nossos vícios e virtudes, fraquezas e forças.
Por não podermos ocultar o que, eventualmente, gostaríamos de manter em segredo, adotamos a estratégia da superexposição como forma de passar desapercebidos. A maneira mais eficiente de não se fazer notar é uniformizar a superfície corporal com a aparência aprovada por todos.
Aqui, eu gostaria de fazer uma pausa.
Quando o movimento da luta antimanicomial busca a inserção dos portadores de sofrimento mental na sociedade, não estamos buscando a normalização da loucura. Ter direitos iguais não significa ‘ser igual a todo mundo’. A afirmação das diferenças é fundamental para o convívio social que buscamos.
Nem tão pouco acreditamos que o sentido do sofrimento humano esteja inscrito nos genes ou nos circuitos neuro-hormonais. Desse modo, nós, portadores de sofrimento mental, não nos desresponsabilizamos e nem desresponsabilizamos a sociedade para com o convívio pacífico e inclusivo das diferenças.
Nisso importa a relação para com o outro e o mundo que queremos construir. Sem dúvida, para mim e muitos que aqui estão, a sociedade que queremos é uma sociedade sem manicômios físicos ou mentais.
Que saibamos aproveitar nesta oportunidade ímpar de, na história da Reforma Psiquiátrica, consolidarmos avanços e enfrentarmos desafios. Fazendo da Saúde Mental um direito e um compromisso de todos. Um bom trabalho a todos!

Sílvia Maria Soares Ferreira
é atriz do SAPOS E AFOGADOS

3 de out de 2010

Quem é ELA?

ELA sobe escadas, ELA come pipoca, ELA vai ao teatro, ELA pega taxi, ELA sente frio, ELA sente saudade, ELA vai ao banheiro, ELA tira fotos, ELA vai ao banco, ELA observa os carros, ELA observa, ELA come tortas de limão, ELA abre portas, ELA espera, ELA usa o orelhão, ELA compra um livro, ELA reza, ELA samba, ELA conversa com gente importante, ELA escreve, ELA encontra uma amiga distante, ELA sobe escadas. Todos que a vêem dizem: É ELA!
Não há dúvidas, É ELA! ELA recebe cumprimentos à toa e sorrisos de graça!
ELA escova os dentes, ELA faz novas amizades, ELA sabe a hora de ir para casa, ELA sabe sair, ELA brinca com os bebês, ELA bebe água, ELA às vezes dorme, ELA retoca a maquiagem, ELA coça os olhos, ELA usa bons perfumes, ELA toma água de coco, ELA atravessa na faixa, ELA anda na calçada, ELA faz análise, também! ELA atende o telefone. ELA liga. ELA é reconhecida pelas pessoas na rua a todo instante. ELA espera quando vai ter bolo, ELA espera.
ELA se confunde. ELA compra flores às sextas feiras, sempre às sextas. ELA chora. ELA fica quando chove. ELA anda chovendo muito.
Não, não, não fale comigo agora, eu agora sou ELA.


Juliana Saúde Barreto